Em busca da Ancestralidade nos detalhes da vida

Cada um de nós nasce um livro em branco, já encadernado e com o timbre definido... Um conjunto de volumes de uma coleção quase infinita, onde outros volumes compõem a teia do enredo que consiste a História da família, de todas as famílias, da sociedade, das culturas, da humanidade, do reino animal, de toda a Natureza.

Posso falar num livro como posso usar o termo mais aproximado, uma tecelagem. Comunidades indígenas falam na grande tecelagem da vida, onde todos fazemos parte com os nossos padrões e as nossas cores e fios de espessuras diferentes, que criam desenhos absolutamente fantásticos e irreais. Na literatura, Garcia Marquez mostra-nos um pouco dessa aprendizagem milenar em Cem Anos de Solidão, até hoje o meu livro favorito de todos os tempos. Não é por acaso que a minha vida de jovem adulta começou a ler Garcia Marquez nos tempos livres do trabalho, na altura estava a trabalhar numa loja de comida a granel, algo que mal ou bem pagava as contas, e Gabriel Garcia Marquez ajudou-me a ultrapassar as dificuldades da altura da vida em que a vida não faz sentido mas tem de ir fazendo. Não esperava, com 24 anos na altura, vir precisamente a especializar-me e trabalhar na área que tanto me fascinou... as relações intergeracionais.

Na minha família temos muito o hábito de contar as histórias das diversas gerações, a fazer comparações entre épocas e contar a evolução da história portuguesa que foi tecida também na grande tecelagem que é esta família. Com todos os seus defeitos, tem uma história rica e fundamental na cultura portuguesa. E talvez por isso, tanto da parte da minha mãe como do meu pai, um fascínio que nutro com os meus primos e irmãs, pelo intergeracional, o geneológico.

O grande momento transformativo da minha vida ocorreu poucos anos depois, tinha eu 27 anos, quando tudo virou ao contrário e a minha vida deu uma volta de 360º.

Quando estudamos a Cura da Ancestralidade, sabemos que todos os que inicam este caminho, fazem-no muito cedo de forma muito inconsciente. Neste caminho, quase espiritual, é mesmo natural encontrar as "ovelhas negras" da família entre curandeiros, médicos, terapeutas, etc., pois é nestes ramos profissionais da grande árvore humana que mais podemos ajudar outras pessoas a caminhar no mesmo sentido. Em inglês explica-se este fenómeno com o termo "family healer", ou seja, a pessoa que nasce para curar padrões familiares tanto em si como nos outros.

É então natural (termo importante aqui) que procuremos também padrões que nos são familiares em todas as relações. Neste caminho de ser o "family healer" sabemos também que tudo é relacional, tudo na vida é feito de relações, estamos sempre em relação ao tudo e com tudo. E é nesse padrão relacional que está o ónus de toda a cura - é aí que vamos encontrar a chave para a libertação futura de todos os outros padrões complexos que desenvolvemos ao longo da vida.

Essa busca incessante, é feita quase sempre de forma subconsciente, mas muitos de nós inicia ao mesmo tempo o caminho que Jung chamou de Individuação. Ou seja, o caminho que nos leva a ser únicos, completos, inteiros, ultrapassando os padrões do passado.

Jung, talvez inadvertidamente, criou uma forma extremamente saudável de encarar todo este caminho na sociedade dita Ocidental. O Shadow Work ou o caminho para a Individuação, é mesmo indicado também na Cura da Ancestralidade. Hoje em dia, no Ocidente, preferimos o secular e psicoterapeutico, ao invés que no Oriente e comunidades Indigenas, preferem-se abordagens espirituais e integradas no dia-a-dia - no movimento, na génese de quem somos.

A minha abordagem profissional engloba as duas visões - espiritual e secular - dependendo da aceitação do cliente. Como trabalhei bastante na Índia, tenho uma perspetiva bastante espiritual deste trabalho, e aplico a mesma perspectiva no meu próprio caminho como "family healer". Sinto-me próxima do Budismo, talvez a religião mais ligada a ser a religião da Ancestralidade. Sigo o caminho Tântrico, que é em essência a escalada até à epitome do conceito família, o caminho do amor verdadeiro, da pessoa certa, d'"o tal". E também sou praticante de Yoga, o caminho espiritual que nos leva de volta a casa da nossa família maior, a Natureza.Tudo isto iniciei inadvertidamente, sem saber que o meu caminho ia dar à Ancestralidade. Quando comecei a estudar o Tantra mais a sério, já estava envolvida na Cura da Ancestralidade e deparei-me com isto: eram dois caminhos que se unem, que fazem parte do mesmo caminho, onde eu já praticava todas as suas vertentes, sem sequer saber o que cada uma significava. São o caminho da verdadeira família, que tem uma ligação não só ancestral e concreta assente na realidade e na realização de si, como uma ligação de alma, espiritual - o que no meio espiritual Ocidental chamam de Alma Gémea ou Twin Flame, é no fundo o caminho do Tantra, sem tirar nem por.

A busca pelas histórias da Ancestralidade são o nosso foco neste trabalho, nada acontece por acaso, nem a mosca que pousa no ombro lá está por mero acaso. Tudo faz parte e está englobado na cura dos padrões ancestrais. Quando Bert Hellinger trouxe para o Ocidente o que hoje se pratica como Constelações Familiares, é isto a base da sua aprendizagem: tudo é feito de padrões que estão sempre em correlação, essas relações são feitas de comunidades e famílias, essas comunidades e famílias criam a sociedade e cultura, o que ele chamou de "constelações". Uma alusão á família cósmica maior que nós.

Uma cliente minha que tem uma história ancestral fascinante redescobriu-se nos deambulos imaginativos infantís como uma pedra fortíssima na sua fundação enquanto ser humano, em dedicação extrema e absoluta ao que é familiar e histórico, ancestral. Ela redescobriu o amor pelos pais, pela história familiar, pela admiração aos membros da sua família, e a ela própria como parte não só integrante, mas fundamental na grande tecelagem que tem sido a história da sua família. Todos os meus clientes me parecem fascinantes, para ser honesta, qualquer história simples acaba por fazer parte de uma teia gigante que se equaciona por fim em simples seres humanos que passam por nós distraídamente na rua. Isso para mim, é realmente um fascínio - as histórias para lá do que é aparente.

A tal busca pela Ancestralidade é algo que todos fazemos. É natural em nós procurar o que nos une, o que nos fascina, o que nos parece extraordinário, o que parece que faz tudo parecer significativo e belo. Porque não é aparência, é precisamente os detalhes da história humana que fazem a verdadeira história humana. Nenhuma história que surge em sessão acontece por acaso - até as histórias mais simples se tornam um caminho para o extraordinário, o que está para além.

A relação espiritual com a Ancestralidade perdeu-se na Europa com a Inquisição mas está a voltar sobre forma do "New Age" ou da religião Wicca. Com a introdução do Budismo e do Yoga no Ocidente, com o fascínio ocidental pelo Oriente.

Nada acontece por acaso, tem mesmo de ser neste ponto importante das nossas histórias e da nossa história colectiva aparecer de novo esta metodologia para a resolução do que é mais complexo em nós, como individuos e como colectivo. A busca da Ancestralidade acontece em todos os momentos, em tudo o que fazemos, em cada acção que faz a grande tecelagem que são as nossas vidas. E posso falar em livros em branco, cada letra, cada frase, cada parágrafo tem a sua importância. É aí que nas entrelinhas se encontra o extraordinário milagre: a presença divina. A busca da Ancestralidade é a volta a casa, a redescoberta do amor, o encontro de nós mesmos.

Tudo é feito de padrões, do próprio fabrico da realidade quântica, á tecelagem exímia da pele, ao desfolhar e desabrochar de uma flor em nascimento, ao tronco da árvore, ao solo por baixo dos pés, ao funcionamento social, á criação de um ser humano, simplesmente tudo o que se possa pensar que existe - é feito de padrões. Isto é o que me fascina principalmente, e dediquei grande parte da minha vida a ler padrões sociais e a resolver problemas complexos - aprendi a olhar para isto de forma simplificada, uma abordagem quase segmentada da realidade social, e mesmo individual. Não pensei na altura que se fosse correlacionar e ser em si um padrão na minha vida: o estudo do complexo, tanto individual e humano, como familiar e natural, ecológico e mesmo político, económico e espiritual. Percebi a dado ponto que tudo na minha vida se encaixava neste padrão que me compõe. Que me faz muito eu, a pessoa única que sou. Olhando para os meus clientes consegui ver também os padrões de que os compunham, e juntos olhámos para as tecelagens das vidas deles - alguns muito conscientemente cobaias da minha aprendizagem, e muito grata estou eu por estas pessoas na minha vida, que deram o corpo á confiança e não sairam a perder.

A busca da Ancestralidade, como dito mais acima, é constante e subconsciente. É nos sonhos que resolvemos os padrões mais difíceis. É a falar e nas pequenas ações do dia a dia, que resolvemos energéticamente o que Hellinger chamou de "knowing field" - o campo energético que nos liga a todos. É nas relações pessoais que resolvemos padrões familiares, até ao encontro de nós próprios, momento esse geralmente de epifania ou mesmo de solidão, dependendo, que nos leva a querer alterar comportamentos e tomar melhores decisões sobre quem deixamos fazer parte dos nossos espaços.

A minha dedicação a este trabalho é absoluta. Em tudo o que faço, do Design ás terapias alternativas, e mesmo ao empreendedorismo, está baseado uma relação familiar e ancestral de mim para a tecelagem que me trouxe aqui. Ajudei a criar e fiz parte de um grupo de pessoas que se organiza ocasionalmente para criar pontes inter-faith. Chamamos as "Spiritual Conversations", variadas pessoas de variadas religões e "mundos espirituais" que se unem em conversa para um maior entendimento das coisas da vida, um ponto de viragem na vida de todos. Já tivemos pessoas famosas a fazer parte das nossas conversas e eu escrevo um artigo para a minha revista online Community Lotus, no Medium, sobre a temática e resolução. Ao observar sobre a perspectiva da Ancestralidade, encontro um encadear humano das lanternas que somos aos pontos centrais da "questão humana". É nesse encadear que se gera luz, que o óbvio a ser resolvido é revelado com clareza.

Encontramos a Ancestralidade em tudo o que somos e fazemos, não é possível fugir e nem queremos, é o que nos mostra o sentido da vida, é o que se nos revela como a missão que "nos trás cá". É um orgulho meu poder partilhar este trabalho convosco.


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